O portal Musseque News conversou com o realizador, argumentista e editor angolano Dércio Tomás Ferreira, um dos jovens criadores que começa a afirmar-se no universo audiovisual lusófono. Numa entrevista marcada por reflexões sobre cinema, política, criatividade e os desafios da indústria angolana, o cineasta falou sobre o início da carreira, a realidade do audiovisual nacional e o mais recente projecto exibido na RTP.
Natural de Luanda, Dércio define-se como alguém profundamente ligado às questões sociais e políticas, utilizando o cinema como ferramenta de expressão e análise do mundo contemporâneo.
“O cinema tornou-se o veículo para comunicar a minha visão do mundo”
Ao falar sobre si, o realizador explicou que a paixão pelo audiovisual surgiu mais tarde do que o habitual, mas acabou por transformar completamente a sua vida adulta.
“Sou um realizador, argumentista e editor de vídeo angolano, natural de Luanda. Sou viciado em questões sociais e políticas, e o cinema é o veículo que encontrei para comunicar a minha forma de ver o mundo”, afirmou.
Actualmente, além dos seus projectos autorais e ficcionais, Dércio trabalha em diferentes áreas do audiovisual, incluindo videoclipes, publicidade, documentários e conteúdos institucionais.
O início da carreira nasceu em Coimbra e com um iPhone emprestado
O percurso profissional começou de forma improvável durante o período em que viveu em Coimbra, Portugal. Segundo contou, tudo teve início na tradicional Queima das Fitas, um dos maiores eventos universitários do país.
“No primeiro ano fui praxado e vivi a tradição da cidade. No segundo quis algo diferente e decidi registar o evento”, recordou.
Sem experiência prévia e sem equipamento profissional, mergulhou durante meses em tutoriais na internet para aprender técnicas básicas de filmagem e edição.
“No dia do evento pedi emprestado o iPhone 7 de uma amiga e filmei a Queima. Editei e publiquei tudo no dia seguinte. Em menos de 24 horas já tinha mais de 200 mil visualizações”, revelou.
O impacto inesperado do vídeo serviu como motivação para investir definitivamente na área audiovisual.
“Angola tem histórias com premissas de Hollywood”
Questionado sobre o estado da indústria audiovisual angolana, Dércio Ferreira foi directo ao afirmar que existe muito mais talento no país do que aquilo que normalmente é visível ao público.
“Tive o privilégio de ler mais de 30 projectos de criadores angolanos e admirei-me com o potencial. Histórias com premissas de Hollywood. E não é exagero”, destacou.
Apesar do optimismo, reconhece que ainda existem dificuldades estruturais significativas, sobretudo ao nível do financiamento, distribuição e infra-estruturas técnicas.
“O maior desafio ainda é a falta de infraestruturas sólidas, linhas de financiamento e distribuição forte”, explicou.
Ainda assim, acredita que o digital poderá abrir novos caminhos para os criadores angolanos nos próximos anos.
Série exibida na RTP aborda temas sociais e políticos
Dércio Ferreira integra actualmente o projecto “Novas Narrativas de Caça”, série antológica exibida pela RTP e disponível na RTP Play.
Criada por Luís Almeida e produzida pelas produtoras Many Takes e Galo Bravo, a série reúne sete episódios independentes realizados por sete cineastas negros, cada um abordando diferentes perspectivas sobre identidade, pertença e questões sociais.
O episódio realizado por Dércio mergulha em temas sociopolíticos e discute a importância da literacia cívica.
“O meu episódio aborda questões sociopolíticas centrais e é um apelo à importância da literacia cívica como ferramenta de proteção contra a manipulação política e contra o sistema capitalista racista”, afirmou.
“As minhas referências são mais ideológicas do que cinematográficas”
Ao falar sobre influências artísticas, o realizador revelou ter uma relação pouco convencional com referências audiovisuais.
Segundo explicou, apesar da paixão pelo surrealismo e afro-surrealismo, grande parte das suas obras nasce de inspirações inesperadas e experiências pessoais.
“As minhas referências provavelmente são mais ideológicas do que visuais ou cinematográficas. O mundo real e a forma como a política o molda dia após dia influenciam-me mais do que qualquer outra coisa”, declarou.
“Aprendi a ouvir ‘não’ e isso tornou-me melhor criador”
Sobre o processo de produção da série actualmente exibida na RTP, Dércio revelou que o projecto foi exigente e marcado por limitações de tempo e adaptação criativa.
No entanto, considera que a experiência o ajudou a crescer profissionalmente.
“O que mais gostei neste projecto foi ouvir ‘não’ para várias coisas que tentei implementar”, confessou.
Segundo o realizador, trabalhar ao lado de outros profissionais experientes permitiu-lhe compreender melhor a dinâmica colectiva do cinema e confiar mais no trabalho em equipa.
“No final, compensou. E tornei-me um criador melhor por tudo isso”, concluiu.
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