O filósofo angolano Kwiji Yami defendeu uma reflexão profunda sobre a valorização da filosofia africana e das instituições tradicionais angolanas, através do texto intitulado “Nós temos o Onjango, jamais a Ágora”, publicado recentemente e que vem gerando debates nas redes sociais e círculos académicos.
No texto, o autor questiona os padrões históricos que colocam a filosofia ocidental como referência universal do pensamento humano, defendendo que África também possui tradições filosóficas próprias, independentes e legítimas.
Segundo Kwiji Yami, Angola não precisa procurar na Ágora grega aquilo que já existe no Onjango — espaço tradicional africano de diálogo, escuta, partilha de saberes e resolução colectiva de questões sociais.
“Por que o critério da filosofia teria de ser sempre ocidental? Por que procuramos a Ágora se o Onjango já responde à nossa realidade?”, questiona o filósofo.
Ao longo da reflexão, o autor critica o eurocentrismo na forma como a filosofia é ensinada e compreendida, argumentando que o pensamento rigoroso e a interrogação da existência não nasceram exclusivamente na Europa.
“Não era só na Grécia Antiga que havia filosofia, mas no Egipto Antigo também”, escreveu.
Kwiji Yami sustenta que Angola possui capacidade própria de produzir pensamento filosófico, ciência e interpretação da realidade, sem depender da validação intelectual europeia.
Para o filósofo, um dos grandes desafios contemporâneos passa pelo resgate da compreensão das instituições tradicionais africanas, muitas vezes distorcidas por interpretações externas ao longo da história colonial.
“O desafio contemporâneo consiste em resgatar a compreensão da nossa natureza e das nossas instituições”, defende.
O texto também procura romper com visões que reduzem a filosofia africana à chamada etnofilosofia ou a conceitos associados ao atraso e subdesenvolvimento.
Segundo o autor, a filosofia africana possui ontologia própria, história própria e fundamentos independentes.
“O Onjango não é uma cópia da Ágora, mas a sua própria origem independente”, afirma.
A reflexão de Kwiji Yami surge num momento em que cresce o debate sobre descolonização do conhecimento, valorização das epistemologias africanas e fortalecimento das identidades culturais no espaço académico e intelectual africano.
Texto: Kwiji Yami | Filósofo angolano.
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