ENTREVISTA: “Tive o privilégio de ler mais de 30 projectos de criadores angolanos e admirei-me com o potencial. Histórias com premissas de Hollywood”, afirma Dércio Ferreira

O portal Musseque News conversou com o realizador, argumentista e editor angolano Dércio Tomás Ferreira, um dos jovens criadores que começa a afirmar-se no universo audiovisual lusófono. Numa entrevista marcada por reflexões sobre cinema, política, criatividade e os desafios da indústria angolana, o cineasta falou sobre o início da carreira, a realidade do audiovisual nacional e o mais recente projecto exibido na RTP.

Natural de Luanda, Dércio define-se como alguém profundamente ligado às questões sociais e políticas, utilizando o cinema como ferramenta de expressão e análise do mundo contemporâneo.

“O cinema tornou-se o veículo para comunicar a minha visão do mundo”

Ao falar sobre si, o realizador explicou que a paixão pelo audiovisual surgiu mais tarde do que o habitual, mas acabou por transformar completamente a sua vida adulta.

“Sou um realizador, argumentista e editor de vídeo angolano, natural de Luanda. Sou viciado em questões sociais e políticas, e o cinema é o veículo que encontrei para comunicar a minha forma de ver o mundo”, afirmou.

Actualmente, além dos seus projectos autorais e ficcionais, Dércio trabalha em diferentes áreas do audiovisual, incluindo videoclipes, publicidade, documentários e conteúdos institucionais.

O início da carreira nasceu em Coimbra e com um iPhone emprestado

O percurso profissional começou de forma improvável durante o período em que viveu em Coimbra, Portugal. Segundo contou, tudo teve início na tradicional Queima das Fitas, um dos maiores eventos universitários do país.

“No primeiro ano fui praxado e vivi a tradição da cidade. No segundo quis algo diferente e decidi registar o evento”, recordou.

Sem experiência prévia e sem equipamento profissional, mergulhou durante meses em tutoriais na internet para aprender técnicas básicas de filmagem e edição.

“No dia do evento pedi emprestado o iPhone 7 de uma amiga e filmei a Queima. Editei e publiquei tudo no dia seguinte. Em menos de 24 horas já tinha mais de 200 mil visualizações”, revelou.

O impacto inesperado do vídeo serviu como motivação para investir definitivamente na área audiovisual.

“Angola tem histórias com premissas de Hollywood”

Questionado sobre o estado da indústria audiovisual angolana, Dércio Ferreira foi directo ao afirmar que existe muito mais talento no país do que aquilo que normalmente é visível ao público.

“Tive o privilégio de ler mais de 30 projectos de criadores angolanos e admirei-me com o potencial. Histórias com premissas de Hollywood. E não é exagero”, destacou.

Apesar do optimismo, reconhece que ainda existem dificuldades estruturais significativas, sobretudo ao nível do financiamento, distribuição e infra-estruturas técnicas.

“O maior desafio ainda é a falta de infraestruturas sólidas, linhas de financiamento e distribuição forte”, explicou.

Ainda assim, acredita que o digital poderá abrir novos caminhos para os criadores angolanos nos próximos anos.

Série exibida na RTP aborda temas sociais e políticos

Dércio Ferreira integra actualmente o projecto “Novas Narrativas de Caça”, série antológica exibida pela RTP e disponível na RTP Play.

Criada por Luís Almeida e produzida pelas produtoras Many Takes e Galo Bravo, a série reúne sete episódios independentes realizados por sete cineastas negros, cada um abordando diferentes perspectivas sobre identidade, pertença e questões sociais.

O episódio realizado por Dércio mergulha em temas sociopolíticos e discute a importância da literacia cívica.

“O meu episódio aborda questões sociopolíticas centrais e é um apelo à importância da literacia cívica como ferramenta de proteção contra a manipulação política e contra o sistema capitalista racista”, afirmou.

“As minhas referências são mais ideológicas do que cinematográficas”

Ao falar sobre influências artísticas, o realizador revelou ter uma relação pouco convencional com referências audiovisuais.

Segundo explicou, apesar da paixão pelo surrealismo e afro-surrealismo, grande parte das suas obras nasce de inspirações inesperadas e experiências pessoais.

“As minhas referências provavelmente são mais ideológicas do que visuais ou cinematográficas. O mundo real e a forma como a política o molda dia após dia influenciam-me mais do que qualquer outra coisa”, declarou.

“Aprendi a ouvir ‘não’ e isso tornou-me melhor criador”

Sobre o processo de produção da série actualmente exibida na RTP, Dércio revelou que o projecto foi exigente e marcado por limitações de tempo e adaptação criativa.

No entanto, considera que a experiência o ajudou a crescer profissionalmente.

“O que mais gostei neste projecto foi ouvir ‘não’ para várias coisas que tentei implementar”, confessou.

Segundo o realizador, trabalhar ao lado de outros profissionais experientes permitiu-lhe compreender melhor a dinâmica colectiva do cinema e confiar mais no trabalho em equipa.

“No final, compensou. E tornei-me um criador melhor por tudo isso”, concluiu.

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